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25 A Mudança

25 A Mudança Aquele ano 1988 finalmente acabara. E com ele, eu queria que tanto sofrimento vivido fosse também. (“Quando eu fui ferido... Vi tudo mudar... Das verdades... Que eu sabia...) Por mais que eu quisesse e fizesse esforço, na verdade, impressos na alma e na mente, eles me marcaram profundamente; e eu, com isso tudo, não tinha como evitar que não me fizessem mudar, embora mudanças para melhor – assim decerto tive que passar a acreditar. Mas, no fundo, eu desejava e tinha toda a esperança de que tudo voltaria a ser como era antes. (Só sobraram restos... Que eu não esqueci... Toda aquela paz... Que eu tinha...”) Apesar das enormes dificuldades nesse período em casa no final do ano que passara, aquilo acabou sendo necessário para dimensionar como seria o retorno em definitivo para casa, uma vez prestes a ocorrer. Conquanto exatamente não soubesse quando, eu tinha que me preparar para aquilo. (“Eu que tinha tudo... Hoje estou mudo... Estou mudado... À meia-noite,

24 Um Estranho no Ninho

24 Um Estranho no Ninho Era inverno em Brasília e estava seco e frio. Era dez e dez da noite do dia vinte e sete de julho de 1971, quando, então, um leonino agitado com ascendente em áries e lua em libra nasce. Era a partir daquele momento que a minha vida, um pequeno grão de areia nesse universo, começava. Minha quadra, a 109 Sul, era todo o meu universo quando da terna infância. Um universo repleto de amor tão perfeito que não se desintegrava, não se decompunha. Um universo harmonioso e íntegro, por assim dizer. Um universo de percepções que ia se alargando conforme eu ia crescendo. Um universo que tinha tudo por perto: a padaria Delícia, onde tinha o pão mais gostoso da cidade na minha percepção; o clube Vizinhança, onde íamos inicialmente e onde aprendi a nadar; o cine Karim, onde assistíamos os filmes infantis à época e, de quebra, fazíamos um lanche no Food’s; os restaurantes Arabeske e o Beirute, onde eventualmente podia se comer esfirras e quibes; a Casa Renato,

23 O Quinto Andar

23 O Quinto Andar A ida para o quinto andar me assustou, não só pelo tamanho e pela disposição, mas por saber que eu seria apenas mais um naquele universo de lesados medulares que menoscabam o destino. E isso era o que mais me amedrontava.  O andar estava dividido em duas alas: uma masculina e a outra, feminina. Eu soube logo ao chegar que, por terem normalmente mulheres acompanhando os pacientes dos quartos, nossas atividades diárias deveriam ser feitas na ala feminina. O que separava as duas alas, conferindo mais privacidade para cada uma, era um corredor cumprido cercado de janelões arredondados de concreto e vidro, dispostos lado a lado. Nessa área, aparentemente desperdiçada, ao longo do trecho médio do corredor, ficavam as suítes para que aqueles pacientes mais dependentes de maiores cuidados e mais atenções pudessem ficar com seus familiares. Um deles estava reservado para mim.  Quando entrei, a primeira coisa que fiz foi observar o banheiro em seu espaço e se era

22 Uma Porta Que Se Fecha

22 Uma Porta Que Se Fecha Daquele momento em diante, mais exercícios respiratórios eu fazia para reforçar a capacidade respiratória. Mais e mais fortalecia a minha dádiva, e mais me desprendia daquele ambiente, bastava só fechar o orifício da traqueostomia. E isso seria feito aos poucos, gradualmente diminuindo a circunferência, por meio da diminuição da cânula.  Até então olhava ao redor, pouco tempo atrás, não podia divisar nenhum ponto de saída daquele hospital. Mas naquele dia, sim, eu podia; porém, mais angústias chegavam com essa possibilidade de saída. Como seria minha vida lá fora? O que eu faria? Como as pessoas me veriam? E a minha família? E o computador? E a cadeira de rodas motorizada, quem me ensinaria? Eram essas duas questões que acabariam por decidir se eu iria mais cedo para casa ou teria que esperar mais um pouco.  Uma parte entendia que não era mais necessário o hospital; e a outra, entendeu que a minha família deveria se familiarizar com minha condição

21 O Desmame

21 O Desmame Após meu aniversário, muita coisa aconteceu. E logo depois da festa. Por ter passado quase uma tarde inteira sem beber nada, tirando aqueles parcos goles numa latinha de cerveja, acabei fazendo uma retenção urinária, inclusive por usar um jeans mais justo e mais apertado que o habitual pijama hospitalar.  Daquilo tive que passar uma sonda na uretra para alívio, que acabou por viabilizar uma infecção urinária, com direito à febre alta e a calafrios. Uma semana de antibióticos. Era uma situação que eu não contava. Após ter sido debelada a infecção, pude retomar à normalidade todas as tarefas. A casca de tartaruga cada vez mais me possibilitou o aumento no tempo fora do respirador. E cada vez mais tempo eu ficava, mais eu podia sentir algo diferente em mim. Minha respiração autônoma aos poucos dava cada vez mais sinais de se restabelecer. E assim foi. Com o passar do tempo, passei a experimentar ficar sem o respirador enquanto usava os ombros para puxar.  J

20 Um Presente de Aniversário

20 Um Presente de Aniversário Não era um dia comum, era o meu aniversário.  Eu tinha tanto para agradecer que não começaria só por ter alcançado aquele dia. A relação de situações para agradecimento só aumentava e isso era espetacular: cada vez mais meu quadro clínico melhorava, mais luz se apontava no fim do túnel.  Se pudesse eleger qual teria prioridade, seria obviamente por estar ali vivo, independentemente de que condição física, decerto com integridade mental preservada. Eu até aquele momento desconfiei da capacidade da medicina: ela ainda não tinha apresentado provas que aquilo que eu estava passando seria definitivo ou irreversível. Pelo contrário, a movimentação de situações novas que começavam a brotar fazia reforçar minha convicção de que ninguém sabia de nada e que tudo aquilo era passageiro. No meu coração, algo me dizia que muito mais viria, porém minha mente não acompanhava sua extensão. A dúvida me dava certeza e afolava a fé. O feixe de acontecimentos

19 A Casca de Tartaruga

19 A Casca de Tartaruga Não demorou muito a casca de tartaruga estava pronta. Toda transparente. Por fora, podia ver meu peitoral todo pressionado dentro daquela redoma de acrílico grosso. Por dentro, existia um vão entre meu peito e o teto interno daquela carapaça para que meu peito e minha barriga pudessem se movimentar com o processo de expansão com a ventilação e aspiração.  Na borda de toda base, uma borracha grossa foi fixada para conferir maior conforto e realizar uma pressão negativa, quase formando um vácuo.  Na parte superior externa, fora feito um orifício para passar um cano estreito com uma espécie de válvula na ponta, onde se prenderia o conector do aparelho ventilador-aspirador. Por cima da casca, duas fitas grossas colocadas em paralelo proporcionavam maior pressão e aderência da casca em peito. Só faltava o teste. Tudo pronto e todos a postos, o teste começou. A carapaça trouxe realmente maior resultado para o processo. Com toda aquela pressão, eu se

18 O Pulmão de Aço

18 O Pulmão de Aço Com a descoberta das minhas novas possibilidades, as cabeças pensantes colocaram idéias para serem discutidas. Eles viram que tinha algo de novo a ser explorado, com grandes chances de ter êxito. As reuniões e visitas clínicas retomaram sua rotina e passaram a me incluir novamente no itinerário.  Depois de tanto prospectarem, adotaram idéia do "Pulmão de Aço" com adaptações. Ao invés de tanta parafernália em cima de mim, decidiram pegar um aparelho emprestado no interior de São Paulo, junto a uma das universidades. Lá tinha um professor que tinha um aparelho muito próximo daquela idéia inicial, só que simplificado. Era como se fosse uma capa de chuva grossa toda azul, cheia de presilhas grossas nas mangas, na cintura, e uma gola tanto justa - tudo isso para evitar escapar o ar que seria inflado dentro desse saco que virava depois de apertado. Por baixo, uma tela de o plástico firme circundava o tronco para firmar e limitar a inflação interna de a

17 A Novidade

17 A Novidade Depois de tanto me queixar quanto à mesmice das coisas, o recado foi recebido e a tarefa foi dada. O fisioterapeuta decidiu inovar nos exercícios, além dos tradicionais na manutenção dos membros que eu já fazia.  Agora era que eu precisava fortalecer meu pescoço para firmá-lo melhor enquanto sentado, como também para que me ajudasse na melhora no uso das adaptações que eu poderia ter. E assim foi: aquele dia comecei a ficar de bruços com apoio em meus braços.  Com toda tralha envolvida no meu pescoço, por conta do respirador, lá estava eu apoiado em meus ombros. Era ficar com a barriga para baixo na cama e com a cabeça sem sustentação como se estivesse lendo um livro a posição. "Nossa, como é ruim ficar de ventre na cama depois do acidente. Parece que todo peso do mundo está sob você", resmunguei. "Você acostuma, Cláudio. No início, é ruim, vai indo melhora, mas aos poucos", disse o Júnior tentando me animar. "Você precisa disso&quo